28 de dez de 2010

Decepcionado com Deus

Um dos aspectos encantadores da Bíblia é que os seus ‘heróis’ são feitos da mesma natureza que você e eu - carne e osso !

Enquanto a literatura do mundo antigo é repleta de idealizações que só cabem nas fábulas, as Sagradas Escrituras mostram os dois lados da criatura.

A coragem e a covardia que habita nas profundezas da alma de todos os seres humanos. O homem fiel e o infiel...

Sombra e luz - traços de um mesmo ser e faces antagônicas de uma mesma moeda.

Habacuque é um dos profetas do Antigo Testamento e o seu nome significa literalmente ‘abraçar’.

Lendo o seu livro senti-me abraçado pela última frase do último capítulo - ‘O Senhor me dá pés como os da corça e me faz andar sobre lugares altos’.

O mais interessante de tudo isso é que esse texto começa falando sobre a sua profunda ‘decepção’ com Deus.

Habacuque destila toda a sua indignação pelo silencio divino diante da urgente necessidade de socorro do seu povo.

O profeta esperneia, grita e chora...

Diante das inumeráveis injustiças cometidas contra os seus irmãos, ele nada mais espera a não ser que Deus aplique uma antiga regra criada por seus pais – olho por olho, dente por dente, o famoso código de Hamurabi.

Habacuque está tomado de raiva em razão da violência dos seus dias.

Os caldeus, cruéis e sanguinários, tinham cometido todo tipo de torpeza contra as nações e agora ameaçavam tomar Israel das mãos do seu povo.

E o profeta urra clamando a intervenção de Deus, mas nada acontece...

Meu Deus, quantos dias eu também sinto essas pulsões Habacuquinianas...

Não consigo consolo diante de tantos absurdos de um mal que parece prevalecer...

A televisão invade a minha casa com sutilezas letais – são porcarias policialescas e toda sorte de perversão possível: traição, esperteza, ganância, infidelidade, prostituição...

Lembro dos versos tristes do poeta Olavo Bilac –Maldita sejas pelo Ideal perdido! Pelo mal que fizeste sem querer e pelo amor que morreu sem ter nascido!’

Lembro do profeta e também levanto a voz e grito ao silencio do meu coração:

Até quando, Senhor? Até quando?


- Na verdade Deus não nos tira do lodo, ELE nos dá força suficiente para dali sair.

- O Senhor Jesus nos fala de um amanhã em que o amor irá progressivamente esfriar de quase todos - (Mateus 24).

- Os pés da corça simbolizam agilidade e destreza, visto que ela procura sempre os lugares mais altos para estar mais segura dos lobos do deserto.

Lobos foram criados para viver em cavernas e os homens para viver em lugares altos.

Isso quer dizer que Deus quer ver você vivendo acima das dificuldades, das lamentações, das invejas, das circunstâncias e das chocarrices...

Lembre-se sempre que faz parte do aprendizado da subida, resvalar vez por outra nas encostas...

E que o Senhor Jesus é a nossa força para subir e alcançar o ar puro das alturas...

Porque tudo posso Naquele que me fortalece!

George Arribas


20 de jun de 2010

Religiosidade é algo mais ou menos assim...


Desça do Ônibus

Para quem não sabe, semanas atrás os jogadores do Santos foram convidados a ir a um hospital em que são tratadas crianças portadoras de deficiências mentais. Já na porta do hospital, alguns jogadores ficaram sabendo que ele está ligado a entidades espíritas e, imediatamente, se recusaram a entrar no hospital, sob a alegação de que sua religião, não declarada no momento, mas presumivelmente evangélica, os proíbe de contatos com o espiritismo. Recusaram-se, assim, a manter contato com as crianças doentes. Outros jogadores entraram no hospital e cumpriram a tarefa para a qual haviam se deslocado até ali.

Criticado, como os demais do grupo resistente, Robinho exigiu:

"- É preciso que respeitem a religião da gente".

Texto sobre o episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com deficiência cerebral, para entregar ovos de Páscoa. Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e preferiram ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação que são evangélicos.

Sou pastor evangélico e santista desde pequenino, porém, os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais Bíblia e de cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra a prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião.

Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.

Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância.

A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai.

E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.

Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar - você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

"Temos bastante religião para fazer-nos odiar uns aos outros, mas não espiritualização o bastante para que nos amemos uns aos outros" (Jonathan Swift )
Rev. Ed René Kivitz
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18 de jun de 2010

A Cigarra e Formiga Gospel


Era uma vez uma cigarra que vivia saltitando e cantando pelo bosque as músicas dos principais cantores gospel.
Certa vez, enquanto decretava as bênçãos de Deus sobre a sua vida, a cigarra esbarrou numa formiguinha, que carregava uma folha pesada.
Ao ver a cena inusitada, a cigarra falou:
- Ei, formiguinha, para que todo esse trabalho? O verão é para gente aproveitar! O verão é para gente se divertir! Somos filhos do Rei! Somos herdeiros de Deus! Eu aprendi com o meu apóstolo que as bênçãos de Deus vem através dos decretos espirituais. Além disso, eu vi na televisão, um pastor dizendo que a prosperidade vem quando semeio ofertas em sua conta bancária. Eu creio nisso, e já até fiz um ato profético determinando a vitória em Cristo.
Ao ouvir a cigarra a formiga replicou dizendo:
- Não, não, não! Não é assim. A prosperidade vem pelo trabalho. Deus abençoa aqueles que trabalham. É preciso trabalhar agora para guardar comida para o inverno.
Ao ouvir a réplica da formiga, a cigarra pensou com seus botões: Pobre formiga, não entendeu a visão! É uma derrotada!

No dia seguinte a cigarra passou de novo perto da formiguinha que carregava outra pesada folha e disse:
-Deixa esse trabalho para as outras! Vamos nos divertir. Vamos, formiguinha, vamos cantar! Vamos dançar! Tudo que Jesus conquistou na cruz é direito seu é direito nosso! Todavia, a formiguinha permaneceu firme no seu propósito de continuar trabalhando. Contudo, movida por compaixão e misericórdia a formiga disse a amiga:
- Cigarra, se não mudar de vida, no inverno você há de se arrepender, vai passar fome e frio.
A cigarra nem ligou, antes pelo contrário, repreendeu a formiga dizendo:
Tá amarrado em nome de Jesus! Tudo posso naquele que me fortalece!

Infelizmente para cigarra, o que importava era aproveitar a vida, e decretar a bênção.
Para que armazenar alimento? Pura perda de tempo!
Afinal de contas ela já tinha adquirido a Bíblia da prosperidade e com isso a imunidade às crises deste mundo.

O tempo passou e com ele o verão. Certo dia o inverno chegou, e a cigarra começou a tremer de frio. Sentia seu corpo gelado e não tinha o que comer. Desesperada, foi bater na casa da formiga. Abrindo a porta, a formiga viu na sua frente a cigarra quase morta de frio que desesperada clamava:
- Formiguinha, me ajude por favor, estou morrendo de frio.
Ao ver o desepero da cigarra a formiga disse: - Ué? Mas você não tinha decretado a bênção? Não semeou as sementes da prosperidade?
O que aconteceu?
A cigarra constrangida respondeu: - Pois é minha amiga, eu estava errada. Fui enganada por esses falsos pastores e apóstolos e agora estou na mais profunda miséria.

Da mesma forma, como essa 'formiguinha gospel', vivem muitos irmãos enganados por doutrinas absurdas, com falsas promessas e profetadas de muitos psicopatas que se dizem pastores e apóstolos do Senhor Jesus.

Rev. Renato Vargens
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9 de jan de 2010

Cartas a um Jovem Poeta


Rainer Maria Rilke

Cartas a um jovem poeta (Primeira carta)

Paris, 17 de fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor, Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias.

Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons.

Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento.

Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda.

Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade.

Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde.

Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes.

Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade.

Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse.

Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.

Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente.

Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke
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